No BB Digital Week 2026, palestras sobre inovação, liderança e futuro do trabalho mostraram por que senso crítico, adaptação e cuidado seguem essenciais na era da inteligência artificial.
Se uma frase resume os três dias do BB Digital Week 2026 — quinta edição de um dos maiores eventos de inovação e tecnologia da capital federal —, é esta: inovação não tem certeza de resultado. Ela apareceu, com outras palavras, em quase todas as palestras que acompanhamos. E veio sempre acompanhada de uma pergunta que interessa a qualquer pessoa que vive de comunicação: se as máquinas fazem cada vez mais, o que continua sendo trabalho nosso?
As respostas vieram de lugares bem diferentes: de um especialista em inovação (Jean Rosier, da Perestroika), um treinador campeão (Bernardinho) e uma futurista (Michelle Schneider). Juntas, formam um bom mapa do que vem por aí. Reunimos, aqui, o que mais nos fez pensar.
Forma e conteúdo: acessibilidade na comunicação
Antes de qualquer palestra, o próprio evento já dava um recado: a comunicação precisa atingir todas as pessoas e ser cada vez mais inclusiva. Todas as falas tinham tradução em Libras e legenda simultânea no telão. E antes de começar a falar, cada palestrante fazia uma descrição de si mesmo para o público cego. Parece detalhe, mas não é: acessibilidade não é acessório que se pendura no fim do projeto, ela nasce no planejamento. E o público sempre percebe quando foi pensada desde o começo.
Inovação: Errar rápido, errar melhor (mas não de qualquer jeito)
Jean Rosier, da Perestroika, foi direto ao ponto: não existe inovação sem experimentação. O mantra “fail fast, fail better” (erre rápido, erre melhor) já virou quase clichê. Mas ele fez questão de lembrar a letra miúda: errar rápido não é errar de forma irresponsável.
E alguém precisa sustentar esse ambiente de teste. Para Rosier, é aí que entra a liderança: o papel do líder não é executar, é cuidar das pessoas que executam. Foi a deixa para Bernardinho.
Bernardinho e o que nenhuma planilha mostra sobre liderança
Poucos têm tantas medalhas para provar um ponto sobre liderança quanto Bernardinho. Mesmo assim, ele começou justamente pelo que os números não mostram: a vontade. Qual o tamanho do coração daquela pessoa? Como ela age quando está em equipe?
A partir daí, deixou uma série de máximas que dá vontade de colar na parede:
- A regra do avião. Para cuidar dos outros, o líder precisa primeiro cuidar de si.
- Errar na forma, nunca na intenção. O líder pode falar algo errado e pedir desculpas. Mas, se erra na intenção, as pessoas percebem, e a liderança se perde.
- Valores não se negociam. Carga horária e remuneração entram na conversa. Honestidade e respeito, não.
- Cultura é o que se tolera. O ambiente de uma equipe é moldado pelas transgressões que deixamos passar.
- Não reclame, não se explique. Apresente-se e faça o seu melhor.
Michelle Schneider e a “singularidade”: o futuro do trabalho com IA
Se Bernardinho falou de equipes, Michelle Schneider falou do tabuleiro inteiro. Pesquisadora do futuro do trabalho e professora da Singularity University — referência mundial em inovação —, ela lembrou: o futurismo olha muito para o passado. “O mercado professional já atravessou outras revoluções, como a agrícola e a industrial. Agora, vive o que futuristas chamam de superciclo tecnológico: inteligência artificial, biotecnologia, robótica e computação quântica avançando ao mesmo tempo”.
Os exemplos parecem roteiro de ficção científica. A norte-americana Colossal, empresa de biotecnologia e engenharia genética, trabalha para trazer espécies extintas de volta à vida (alguém lembra de Jurassic?). Já Neo é um robô humanoide que já está sendo vendido com a promessa de ajudar as pessoas nas tarefas domésticas. Ele seria uma espécie de neto cibernético da Rosie, robô doméstico do desenho animado Os Jetsons, um hit dos anos 1970. No horizonte, dois conceitos que vale conhecer:
- Inteligência Artificial Geral — evolução das IAs que usamos hoje, capaz de realizar qualquer atividade intelectual tão bem quanto um humano. Ela ainda não existe, mas, segundo uma projeção citada na palestra, poderia chegar ao mercado até 2030. Então, se você se impressiona com a capacidade dos agentes de IA de resolver tarefas por você, mesmo que sob supervisão, imagine quando elas conseguirem fazer isso tão bem que possam começar a não precisar mais do seu olhar crítico para validar a qualidade das entregas.
- Superinteligência ou singularidade — uma segunda evolução que fará as IAs começarem a se aprimorar sozinhas até superar toda a inteligência humana somada. O que ela conseguirá fazer? Ninguém sabe! E é por isso que tanta gente tem medo dela. A previsão citada por Michelle, considerando o ritmo atual de desenvolvimento, é de ela se tornar realidade a partir de 2049. Trata-se de uma projeção, não de uma data confirmada.
O que muda no trabalho com a inteligência artificial
O impacto começa pelos trabalhos repetitivos e avança sobre os empregos corporativos. E aqui veio o dado que mais mexeu com a gente. Até pouco tempo, a criatividade era considerada a área mais protegida da automação. Com a chegada da IA generativa, há cerca de quatro anos, os profissionais criativos passaram para a lista dos mais impactados. Sim, isso inclui quem escreve, edita e cria conteúdo.
Antes do pânico, a nuance: a IA costuma eliminar tarefas, não empregos inteiros. Corre risco quem tem a maior parte do dia ocupada por tarefas automatizáveis. As estimativas apresentadas variam de 14% a 47% de empregos ameaçados, mas o saldo projetado até 2030 é positivo: 170 milhões de vagas novas contra 92 milhões substituídas, segundo o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial. Essa projeção considera transformações econômicas, demográficas e tecnológicas, não apenas o avanço da IA. Depois disso, com a chegada da IA geral, ninguém arrisca previsão.
Quatro habilidades humanas para qualquer futuro
- Mente inovadora: curiosidade e criatividade generalista
- Letramento digital e em liderança
- Inteligência emocional
- Saúde mental
Sobre a terceira, ela citou a ideia popularizada por Daniel Goleman: o QI responde por apenas cerca de 20% do sucesso de uma pessoa. O resto vem de fatores como sorte, origem social e quociente emocional, ou seja, como lidamos com o que não sai como planejado. E não existe sucesso profissional sem saúde mental.
IA como sistema operacional
Uma observação divertida, e reveladora: os mais velhos usam o ChatGPT como se fosse o Google. Quem tem entre 20 e 30 anos o trata como conselheiro de vida, um amigo com quem conversar, um terapeuta nos momentos de crise. Já os mais jovens o usam como sistema operacional, automatizando tudo o que se repete. Segundo Michelle, só 3 milhões de pessoas no mundo usam IA desse jeito hoje.
E ela mostrou a própria rotina: uma assistente apoiada por IA que envia propostas, atualiza o CRM, cuida de logística, agenda e notas fiscais. A proposta já chega pronta, em rascunho, e só precisa ser disparada. Há ainda um agente de “segundo cérebro”, que transcreve o que ela vê, organiza tudo por temas e sugere conexões.
Com pessoas vivendo mais de 80 anos, também não fará sentido pensar em aposentadoria aos 60. Novas carreiras para quem tem 60+ vão surgir, e todos nós vamos precisar formar repertório em tecnologia.
O que levamos para casa: o menor teste possível com IA
Depois de tanto futuro, a dica mais útil foi também a mais pé no chão. Para começar a usar IA, ninguém precisa de um grande projeto. Basta o menor teste possível: uma tarefa e uma pessoa.
O roteiro é simples:
- Escolha uma tarefa que se repete e que hoje causa dor.
- Escolha uma pessoa para testar.
- Defina a ferramenta, como saber se funcionou e uma data para revisar.
- Teste por 7 dias.
- Conte na reunião de equipe o que aprendeu.
Veio junto uma pergunta que toda equipe deveria conseguir responder: existe uma regra clara do que não entra na IA? E as pessoas se sentem à vontade para avisar quando ela erra?
É o que vamos fazer por aqui. Se a IA vai mesmo assumir as tarefas repetitivas, o que sobra para nós é justamente o que as palestras repetiram, cada uma do seu jeito: senso crítico, capacidade de adaptação, cuidado com as pessoas e responsabilidade nas escolhas. Errar rápido, errar melhor, e nunca de qualquer jeito.